Andei pensando esses dias numas coisas que eu, durante uma sessão de terapia alcoólica, ouvi de uns trouxas metidos a filósofos. Eu tomava um uísque barato e pensava em uma maneira de não pensar até que um deles, um dos trouxas que tomavam sagatiba e cerveja com xuxinha, disse que ninguém é insubstituível. O cara foi mais funesto que uma casa funerária. Porra, se ele pensa assim porque ele falou pra biscate dele “te amo e te quero pra sempre”? Se ela é substituível, como ele pode amar ela? Pra que querer acordar todo santo dia olhando pra uma cara substituível? Pra que querer essa droga que é o amor que vai te matando dia após dia, roendo seu corpo como um rato faminto e te destruindo como uma árvore atacada por cupins se esse mesmo amor é substituível? É engraçado como essas idéias baratas e frases feitas de bar mexem com a mulecada.
Passou um tempinho eu ouvi mais uma pérola. Um dos manés da galera soltou um “a felicidade se encontra nas coisas simples”. Eu olhei pro filho da puta, ele vestia uns panos caros, tinha o símbolo da Honda na chave que segurava na mão e não tinha nem a dignidade de olhar pros amigos trouxas enquanto falava, pois estava twitando alguma bobagem pelo iphone novo que o papai lhe deu de presente. Tão simples quanto a frase foi perceber que ele achava um tédio estar ali com os amigos. Um paradoxo cômico.
Depois de um tempinho, o bar começou a rodar e as minhas idéias já não faziam mais tanto sentido, o que faz sentido, pois bebe-se pra esquecer da rotina imensuravelmente entediante que nos cerca, pra se desvencilhar da monotonia e das tristezas implacáveis, pra se sentir menos lixo do que o normal, pra foder com mais tesão, entre outras coisas, e nenhum desses objetivos deixa outro caminho à nossa mente que não seja o caminho abstrato da incoerência. Mas eis que um dos idiotas da outra mesa me tirou do meu exílio entorpecente e me fez voltar a pensar de novo. Ele disse: “Caraca, tá rolando uma festa mó louca na casa da Andressinha, gente da alta e bebida cara. Borá enlouquecer galera?”. Enlouquecido ficou eu. Um monte de moleque que nem pelo no saco tinha, achando que iam se dar bem na casa de uma putinha rica, bebendo dois copos de whisky e mijando nas calças, crendo que seria bom porque tinha gente rica e bebida idem. Onde foi parar o companheirismo e o senso de ridículo? Ter felicidade fazendo coisas simples é participar de orgias burguesas onde as únicas frases permitidas são “to muito chapado” e “quero chapar mais”? Aí eu vi que talvez, ou às vezes, as pessoas são substituíveis deveras.
Peguei minha garrafa quase vazia de uísque barato, tomei mais um gole e me levantei. Passei pela mesa deles e com muito orgulho senti seus olhares. Olhares típicos de quem se sente superior pelo ter e não pelo ser, de quem me viu com uma barba mal feita e uma roupa de segunda e me achou um idiota, um infeliz sem teto e sem ninguém, um bêbado inveterado e um drogado sem objetivos que nem aparece no mapa da sociedade. Deus sabe como eu amei essa antipatia. Murchei os pneus do carro deles e escrevi com uma pedra no capô “À doce mocidade” e fui beber um pouco mais da minha doce solidão num boteco mais fedido.
João Gabriel Ferreira.
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